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RPGs e a busca da Identidade

Diferente dos jogos de ação e tiro o RPG (seja individual ou online) é marcadamente calcado na história de um personagem, ainda que esta história (como no caso dos MMORPGs) seja quase que exclusivamente decidida pelo jogador. Nos RPGs assumimos um papel no cenário fictício, mas ao mesmo tempo continuamos nós mesmos controlando e interagindo com a máquina. G. K. Chesterton conta uma história sobre um explorador que, depois de uma longa viagem marítima, descobre uma nova terra e no momento em que finca a bandeira reclamando-a, percebe que acabou por retornar à Inglaterra. Longe de ver como mera história humorística, Chesterton aponta que esta descoberta é o sonho íntimo de todos nós: algo novo e ao mesmo tempo familiar, a alegria do descobrimento aliada ao conforto de se sentir em casa. Talvez este mesmo raciocínio possa se aplicar à fantasia e mais precisamente aos RPGs.

No jogo de RPG nós assumimos outro papel, mas ao mesmo tempo continuamos nós mesmos. Não há uma transformação total nossa no herói da aventura – salvo em casos patológicos – mas uma mescla entre quem somos e quem sonhamos/cogitamos/nos descobrimos ser no mundo virtual fictício. A coisa não se limita a vencer o jogo e vivenciar sua história, mas mesmo após finalizada, a narrativa se torna parte de nós. E ainda que seja uma parte de nós experimentada no imaginário, não é razoável supor que o que ocorre no imaginário é menos potente para alterar nossas mentalidades do que aquilo que ocorre no mundo físico. Em última instância, este pode ser o motor da maioria de nossas experiências para além das atividades mais básicas de subsistência. Nós experimentamos, buscamos, exploramos, sofremos em busca de aprender e entender melhor quem nós somos. Incapazes de olhar para dentro de uma perspectiva externa, olhamos para fora na expectativa de que algo no cenário possa refletir um pouco mais de nossas almas. O enigma final talvez seja inapreensível para nossas mentes, mas não nos impede de tentar.

A história de Chesterton aparece em seu livro “Orthodoxy”, onde narra sua caminhada do ateísmo em direção ao cristianismo e para retomar o tema, no livro de Apocalipse (capítulo 2, verso 17) se fala que os vencedores receberão de Deus uma pedra branca com um novo nome, conhecido apenas de seu possuidor. Talvez seja esta a derradeira descoberta da própria identidade. E aí não precisaremos mais de jogos.

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